O projeto dos pós-emancipadores de Diadema nasce da percepção de que a história de uma cidade não se faz apenas com atos políticos, como o plebiscito de 24 de dezembro de 1958 e a oficialização em 1º de janeiro de 1960, mas principalmente com o trabalho cotidiano de centenas de pessoas comuns que ajudaram a construir, na prática, o município. Depois do gesto heróico dos emancipadores, que garantiram a separação de São Bernardo do Campo e abriram caminho para a autonomia administrativa, surgiu uma nova geração de protagonistas silenciosos: comerciantes, advogados, pequenos empresários, migrantes nordestinos, paranaenses, mineiros e trabalhadores de diversas áreas que ergueram escolas, abriram ruas, alimentaram alunos, criaram negócios e deram vida ao que hoje é uma cidade com quase meio milhão de habitantes.
A história do Dr. Cláudio Alves da Cruz é um retrato desse processo. Nascido no Paraná, ele chegou a Diadema em 1970, quando a cidade tinha apenas dez anos, acompanhando o pai, Constantino, que buscava oportunidades de trabalho. Em uma Diadema ainda em construção, com escolas funcionando em garagens e ruas de terra tomadas pelo barulho dos tratores que canalizavam córregos e preparavam o asfalto, Constantino começou vendendo café, bolo e pão com manteiga nas obras da rodovia dos Imigrantes e, depois, salgados e pastéis nas escolas municipais, autorizado pela direção. Com o tempo, a família se fixou na região central, em ruas como Avaré e São Marcos, em meio a um cenário quase rural, com poucas casas espalhadas e grandes vazios urbanos, que aos poucos seriam ocupados pelo crescimento acelerado da cidade.
Após a morte do pai, em 1977, a mãe de Cláudio, Dalila, assumiu a cantina escolar, prestou concurso e passou a trabalhar como cozinheira e caseira em unidades como o Filinto, ajudando a alimentar gerações de crianças. Cláudio, por sua vez, se tornou comerciante, à frente de cantinas, sorveteria e pizzaria, atendendo escolas e espaços privados em um momento em que Diadema se estruturava com mais serviços, clubes, bailes, associações e equipamentos de lazer. Ao mesmo tempo, ele viveu intensamente a vida comunitária da cidade: estudou em escolas que nasceram em garagens e depois em prédios já consolidados, participou de desfiles cívicos, tocou na fanfarra, frequentou bailes de garagem, domingueiras em clubes e casas noturnas como Estúdio 8 e outras que marcaram a juventude local, sempre em torno do centro, da praça, do teatro e da matriz.
Já adulto, depois de anos dedicados ao comércio, Cláudio decidiu retomar os estudos aos 35 anos, fez cursinho, prestou vestibular, iniciou a faculdade em 2000 e se formou em Direito em 2005, obtendo a carteira da Ordem após persistir diante da dificuldade do exame. Sua trajetória mostra um tipo de pós-emancipador que não apenas gera renda e emprego, mas também se reinventa, amplia sua formação e continua contribuindo com a cidade a partir de outra profissão, sem romper o vínculo com o lugar onde cresceu e construiu sua identidade. Ao mesmo tempo, sua narrativa ajuda a resgatar um passado em que Diadema tinha fontes de água limpa, casas de veraneio na região da represa, bailes de bairro, ruas sendo abertas, postes sendo instalados e serviços básicos chegando lentamente, sempre mediados por lideranças como vereadores, prefeitos e figuras comunitárias que reivindicavam melhorias para os bairros.
É nesse contexto que o ABC News propõe o debate sobre os pós-emancipadores: reconhecer e registrar a história de pessoas que, com seu trabalho, ajudaram a transformar uma cidade recém-emancipada, com cerca de 11 mil habitantes, em um município consolidado, vibrante, acolhedor e estratégico na região, próximo a São Paulo, São Bernardo, à Imigrantes, ao aeroporto e ao porto. Ao entrevistar personagens como o Dr. Cláudio e tantos outros que serão convidados, o projeto busca fortalecer o sentimento de pertencimento, valorizar a memória coletiva e mostrar que todo diademense que pagou impostos, abriu comércio, atuou em escolas, construiu ruas ou simplesmente permaneceu e investiu sua vida na cidade é, em alguma medida, um pós-emancipador. A diferença é que alguns se entregaram de forma mais intensa, deixaram marcas mais visíveis e se tornam, assim, símbolos vivos dessa Diadema que envelhece em anos, mas se mantém jovem em energia, criatividade e orgulho de sua própria história.
Se você se considera um pós-emancipador, mande-nos um e-mail contando sua hostória e entraremos em contato para registrar esse momento hitórico: E-mail: posemancipadores@gmail.com
Assissta entrevista com um pós-emancipador, Dr. Cláudio.
https://www.youtube.com/watch?v=6dT8AfwHvlQ