Antes do amanhecer, viaturas já cruzam as ruas da cidade, rádios comunicadores interrompem o silêncio da madrugada e decisões rápidas precisam ser tomadas em segundos. Durante anos, em meio a esse cenário de pressão constante, um nome se tornou referência dentro da segurança pública de Diadema: Tenente-Coronel Viviane Cristina Santana.
Agora, após três décadas de serviço na Polícia Militar do Estado de São Paulo, ela deixa a ativa.
A saída ocorre em meio às mudanças promovidas pelo Governo do Estado após aprovação, pela Assembleia Legislativa de São Paulo, do projeto de lei apresentado pelo Governador Tarcísio de Freitas, que alterou as regras de aposentadoria da corporação e antecipou a passagem para a reserva de parte significativa do alto comando da Polícia Militar paulista.
Entre os nomes atingidos pela nova legislação está justamente o da oficial que entrou para a história ao tornar-se a primeira mulher a comandar o 24º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano de Diadema.
Mas reduzir sua trajetória apenas ao fato histórico seria pouco.
Viviane construiu carreira em um ambiente duro, hierárquico e tradicionalmente masculino. Não chegou ao comando por acaso. Foram anos ocupando funções operacionais, administrativas e estratégicas dentro da corporação até assumir uma das unidades mais importantes da região do Grande ABC.
Quem acompanhava sua atuação percebeu rapidamente um estilo diferente de liderança.
Menos distante. Mais presente.
Ao mesmo tempo em que mantinha o rigor característico da Polícia Militar, também desenvolvia proximidade com pautas humanas sensíveis, especialmente ações voltadas ao enfrentamento da violência doméstica e proteção das mulheres.
Sua formação acadêmica ajuda a explicar esse perfil.
Além da carreira militar, Viviane acumulou especializações em Segurança Pública, Direito Público, Fisiologia do Exercício e Enfrentamento à Violência contra Mulheres e Meninas, além de formação em Direito e Educação Física.
Em 2019, representou a Polícia Militar paulista em treinamento internacional realizado em Tóquio, no Japão, apresentando iniciativas brasileiras de combate à violência doméstica, entre elas o aplicativo “SOS Mulher”.
Sua saída da ativa inevitavelmente provoca reflexões.
Porque quando profissionais experientes deixam funções estratégicas, não é apenas a corporação que sofre impacto. A cidade também perde.
Perde conhecimento acumulado.
Perde liderança operacional.
Perde alguém que conhece de perto os desafios da segurança pública urbana.
Diadema, historicamente marcada por debates sobre violência, policiamento preventivo e políticas públicas de segurança, talvez ainda possa aproveitar essa experiência de outra forma.
Nos bastidores políticos da cidade, já existem comentários sobre a possibilidade de Viviane Cristina Santana ser convidada futuramente para integrar algum setor da administração municipal ligado à segurança pública, prevenção à violência ou políticas voltadas às mulheres.
A hipótese não parece improvável.
Experiência de comando, preparo técnico, formação acadêmica ampla e conhecimento profundo da realidade local são características raras de encontrar reunidas em um único nome.
Enquanto a farda deixa oficialmente sua rotina diária, permanece a sensação de que sua atuação profissional talvez ainda tenha muito a contribuir fora dos quartéis.
Algumas carreiras terminam apenas no papel.
Outras continuam ecoando nas cidades por muito tempo.
Por Leandro dos Santos Macario